Morar bem é... Reproduzir no lar valores e conceitos

Magda Dias Leite - Proprietária do Café Bistrô Santa Sophia

A definição de morar bem passa, definitivamente, pela filosofia de bem viver. Para muitas pessoas, pode significar morar próximo do trabalho e, para outras, necessariamente, bem longe. Para mim, é estar onde posso estar, de acordo com critério e detalhes que fazem grande diferença. Atualmente, adoro morar a 15 minutos do trabalho, tendo a Avenida do Contorno como uma grande aliada.
Se, para alguns, morar bem depende de uma bela casa ou de um pequeno e prático apartamento, prefiro um espaço que se faça suficiente para abrigar minhas fantasias e minhas demandas. Isso inclui receber um pequeno grupo de queridos amigos e acolher com muito carinho os filhos que chegam de longe para um barulhento fim de semana.


Morar bem requer espaço para estar cercada de pessoas amadas, com o sol como companhia em ambientes arejados, quartos espaçosos, uma boa cama e brancos lençóis de algodão com cheiro de roupa passada com capricho. É ter na cozinha um bom fogão e gente com fome para experimentos gastronômicos. Pois surpreender é sempre preciso... A cozinha é o melhor espaço de minha casa. É onde ocorre meu reinado, meu laboratório, meu refúgio. Com coragem, decidi um dia mudar tudo aquilo que não me agradava na cozinha. Derrubei, sem remorsos, paredes e revestimentos e construí um espaço do tamanho do meu desejo. Assim, passei a gostar ainda mais de minha casa e do meu jeito de morar.

Escolher um lugar para bem viver exige, muitas vezes, decisões práticas, como ter supermercado, farmácia, academia e escola ao alcance das mãos. Entretanto, dou mais valor a outras coisas que traduzem melhor o conceito de bem morar, que é, absoluta e invariavelmente, pessoal: a possibilidade de debruçar na janela e olhar o horizonte ao longe enquanto recebo o vento no rosto; namorar na varanda observando a lua; e contemplar, emudecida, o fogaréu de um exuberante pôr-do-sol a cada tarde. O pressuposto de tudo isso poderia ser morar no alto de uma montanha ou, na falta dela, no 180 andar, por exemplo, como eu moro.

Desfrutar de silêncio profundo ou sentir-se protegido ao ouvir ruídos vindos da rua. Difícil definir qual dos dois se configura no mais importante dos conceitos. Durante o dia, buzinas e roncos de motores lembram a vida que pulsa do lado de fora, convidando a pular da cama e ir à luta. À noite, o silêncio profundo ajuda a meditar e tomar decisões importantes. Outras vezes, o canto dos pássaros empresta um ar bucólico à dureza do asfalto, e fantasio uma vida campestre olhando a beleza da Serra do Curral, bem diante da janela.

Adoro meu lar, embora me defina como alguém em constante mutação. Sempre que dá vontade, mudo cores, adornos, almofadas. Guardo coisas de família com as quais sempre convivi. Ao mesmo tempo, jogo fora outras que já se identificam com a pessoa na qual me transformei.

Tento morar cada vez melhor e essa busca é o grande diferencial na construção de uma vida com valor. Recordo o inconfundível Mario Quintana, que, ao ser “despejado” do quarto de hotel em que morava há muito tempo, não se mostrou aborrecido: – “afinal, sempre morei em mim”.

Fonte: - Estado de Minas